É ok não estar ok

Estudos sugerem que as perturbações da saúde mental podem afetar até cerca de 35% dos atletas de elite a certo ponto da sua carreira. Estas podem ir de burnout a uso de substâncias ou perturbações alimentares, depressão ou ansiedade.

Já após os Jogos Olímpicos de Londres em 2012, Michael Phelps, conhecido nadador americano, revelou a sua luta interna com a depressão, pensamentos suicidários e consumo de álcool e outras substâncias. Durante esta semana, em Tóquio e cerca de 9 anos depois, Simone Biles, ginasta americana, reivindicou o seu direito de colocar a saúde mental em primeiro lugar, de se priorizar em detrimento de uma medalha ou de uma pontuação. A tenista japonesa Naomi Osaka fez algo semelhante quando desistiu da sua participação no Open francês, admitindo também que não estava preparada para Tóquio. Sha’Carri Richardson, suspensa pelo uso de canabinóides, revelou que o fez numa tentativa de tentar lidar com a dor da morte recente da sua mãe e com a pressão da prova de 100 metros. Liz Cambage, uma jogadora da WNBA que compete pela Austrália abordou a enorme angústia e ansiedade causadas pela “bolha” de Tóquio, criada devido às restrições impostas pela pandemia de COVID-19. Em Portugal, o judoca Célio Dias partilhou detalhes acerca da sua depressão e tentativas de suicídio após um combate nos Jogos Olímpicos de 2016, tendo sido diagnosticado com esquizofrenia dois anos mais tarde.

As próprias características de uma competição como os Jogos Olímpicos, dotados de uma enorme pressão e expectativas que são depositadas num único atleta, não só para ultrapassar e vencer as restantes nações, mas para se superar a si próprio após quatro anos de treino intensivo, são suficientes para despoletar questões de saúde mental.

Num ambiente que premeia o ou a melhor, que almeja a perfeição, deixa de haver, muitas vezes, espaço para a (falsa) perceção de fraqueza associada à doença mental.

Para abordar de forma adequada a questão da saúde mental no desporto de elite (e não só) será necessário continuar a chamar a atenção para o assunto, discuti-lo extensivamente, sem tabus e, preferencialmente, sem o estigma normalmente associado à doença mental.

É fundamental deixar claro que a saúde mental deve ser abordada e discutida, não só por profissionais de saúde, mas pelo público em geral, desde que de maneira informada e construtiva.

É urgente entender que discutir quer a saúde quer a doença mental nos fortalece, ao invés de enfraquecer; que só revelando as nossas vulnerabilidades e conhecendo os nossos próprios limites podemos verdadeiramente desabrochar, ajudando-nos a nós próprios e, assim, ajudando outros.

Por Carolina Rodrigues, Mulher cis, médica interna de Psiquiatria, apaixonada por conversas longas e desapressadas

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