SM

Quando tinha 19 anos uma namorada que gostava muito de mim levou a minha primeira bofetada raivosa. Porquê? Não sei. Sempre que batia, uma névoa vermelha de fúria me toldava o cérebro. Felizmente, ela acabou o namoro e eu vim a casar com a minha melhor amiga da escola: infelizmente para ela também lhe bati… justiça seja feita, tal como o meu pai não me bateu também eu não bati nos meus filhos. Mas sofreram as visões tal e qual eu sofri.

 

Será isto o início dos episódios de PMD, agora modernamente apelidada de bipolaridade? Desculpem-me os técnicos de saúde mas bipolar faz-me lembrar numa pilha elétrica em que a minha cabeça é positiva e os pés são negativos; prefiro enfrentar a doença com o termo antigo, mais cru, pois a psicose existe, é grave, afeta cada vez mais pessoas e é hereditária.

 

Além disso ser bipolar não é alternar os dois polos, como o nome pode indiciar: eu sempre tive mais episódios de depressão (moderados ou profundos) do que de mania.

 

Não consigo precisar quando o diagnóstico ocorreu mas já anos antes a minha mulher me sugeria que eu deveria procurar ajuda psiquiátrica. Mesmo fazendo-o, não aceitei a doença. Interrompi a medicação porque me colocava num estado muito estranho e estive mais de um ano deprimido, sem sair de casa. A ir da cama para o sofá e do sofá para a cama. Com os filhos a crescer e a minha mulher a sustentar a casa e a tentar segurar as contas.

 

Num dia qualquer, a minha cliente número um conseguiu falar comigo para lhe fazer um trabalho, eu levantei-me e… até hoje, com mais ou menos dificuldade tenho conseguido funcionar. Há cinco anos que tenho uma vida normal sem sonhos de grandeza próprios da mania, estou clinicamente e nunca mais parei de tomar a medicação sendo acompanhado duas vezes/ano.

 

No meu caso o que é que tem funcionado para este estado de equilíbrio?

Comida saudável e exercício físico regular, ginástica mental (ler ou estudar em vez de aparvalhar em frente à televisão das novelas e dos Big Brothers. Saliento que só é possível ter este diálogo porque estou bem medicado: esta doença pode requerer alguns ajustes que se obtêm com um seguimento em consulta regular, caso contrário a minha auto-estima seria tão baixa que não valeria a pena tentar expressar o que me vai na alma

 

Tudo vale a pena quando a alma não é pequena

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Chamo-me José, tenho 54 anos, 176 cm, 84 kg. Sou divorciado, tenho dois filhos criados e um neto recém-nascido. Vivo só, desempregado, sem subsídios, com ajuda da família chegada e amigos e um ou outro trabalho.

 

Pediram-me para descrever a minha experiência e decidi imediatamente ser honesto com o papel, já que tenho vergonha de o ser olhos nos olhos. Contar por escrito o que nunca disse a  ninguém. Espero que alguém aprenda, basta uma pessoa para já ter valido a pena expor-me.

 

A minha infância foi feliz, mas o meu pai batia na minha mãe, às vezes. Era confuso. Com o tempo cresci a amar/odiar os meus pais (ele batia, ela não se ia embora) até que compreendemos (e compreender tudo, é perdoar tudo, é a maldição dos justos).